O espectro da insubmissão fiscal

denplironoPublicado en FerramentaZine en Maio de 2012.- De entre as mais conhecidas fotografias do incêndio social ateniense, sobressai uma curiosa imagem: a de políticos de esquerda e sindicalistas dando palmadas nas costas dos activistas de Den Plirono (”Eu não pago”), movimento nascido contra o pagamento de portagens na auto-estrada de Afidnes, a norte de Atenas, decretado pelo governo para antecipar às construtoras o dinheiro de futuros empreendimentos. Os activistas rejeitam o abraço envenenado de quem consideram fazer parte do mesmo sistema impositor, que eles cifram como impostor, sem aceitar nuances semânticas. Alentado pela crise e a grave deterioração moral da sociedade grega, o movimento atingiu, desde 2009, proporções impensáveis, e, atrás da recusa a pagar as portagens, seguiram-se acções contra as taxas nos transportes públicos e na assistência sanitária, contra o IVA, ou contra o imposto sobre as propriedades imobiliárias colectado a través da factura eléctrica. Entretanto, líderes mediáticos da direita confrontam a mal sucedida fotografia dos seus parceiros na banda esquerda do arco parlamentar com uma defesa fechada do sistema tributário e a necessária sustentabilidade do estado, numa paradoxal troca de princípios entre neo-liberais e social-democratas, todos eles comprometidos no processo que levou à ruína da república. Seguir lendo

Leituras para tempos de crise

Diz o Peter Sloterdijk no seu livro “Palácio de Cristal” que a Historia, propriamente, acabou em 1974, com a Revolução dos Cravos. A queda do derradeiro império colonial marcaria o feche do processo de globalização iniciado em Outubro de 1492 quando vários indígenas das Caraíbas descobriram numa praia, não sem abraio, uns estranhos seres chamados europeus. Logo disso, abriria-se a era pós-imperial na que nos encontramos, onde a tal História continua só como prática mitológica das diferentes nações de narradores que no actual contexto planetário teimam na sua supervivência, senão política, no mínimo cultural. Mas a Historia, essa, teria acabado de vez, restando só aquele fantasma com o que ainda podem fazer negócio os historiadores. Também não é questão que os coitados morram à fome.

Que a História tenha acabado não é, nem muito menos, uma ideia nova. O que sim é mais novidoso é a ideia proposta pelo pensador de Karlsruhe que identifica ou liga a História, ou melhor, a História Mundial da Europa, com o que hoje chamamos globalização, não sendo esta portanto um processo recente quanto um processo já clausurado, contra o ponto de vista mais corrente espalhado na comunicação social por politólogos e sociólogos de variada pelagem. Precisamente Sloterdijk, com a arrepiante erudição da que tem por costume fazer gala e um estilo mais achegado da pena incisiva da Crítica da Razão Cínica que do verbo espumoso de Esferas, assume o desafio de encarar a globalização e a sua fenomenologia dum ponto de vista filosófico, resgatando-a desse totuum revolutum conceptual que enche o papo de políticos e jornalistas a propósito do tal bicho.

As sugestivas páginas de Palácio de Cristal, ou no seu título original, Im Weltinnerraum des Kapitals -No espaço-interno-do-mundo do Capital-, conduz-nos numa viagem filosófica empolgante pela época da expansão europeia e o nascimento e consolidação do sistema-mundo. Trata-se da tentativa, nas próprias palavras do autor intempestiva ou impossível, de elaborar uma grande narrativa sobre a globalização terrestre da história inspirada na filosofia. Se por alguma coisa Sloterdijk é um pensador contumaz e irredutível é por não recusar propósitos de natureza tão improcedente, o que o situa um passo mais alá tanto das posições claudicantes da pós-modernidade como da parálise teórica e prática da velha esquerda, capaz em definitiva de produzir relatos de grande formato além da crise das grandes narrativas, pois o alemão tem a bem humorada honestidade de pensar no gume mesmo da realidade e não rejeitar os desafios que cortam a respiração dos grandes ideais. Megalopsychía, eis uma outra filosofia política, a magnanimidade na que Aristóteles, lembra-nos Sloterdijk, cifrava a autenticidade do cidadão.

Aquele pensador provocativo que descobriu o cinismo trás os veios da ideologia como uma forma superior de falsa consciência, oferece-nos no tal livro um olhar atrevido sobre as possibilidades duma nova esquerda que demora em tomar altura filosófica. Retomando a velha ideia de esquerdiçar a Heidegger num irónico abraço de ferro com a esquerda hegeliana, propõe, frente à esquerda celeste do progressismo abstracto, com o seu universalismo simétrico, homogéneo e reversível, uma esquerda terrestre que não tenha medo de reconhecer o que de assimétrico, heterogéneo e irreversível há no local. “Estar estendido no seu própio lugar é o bom hábito de ser”, afirma. Do ponto de vista da teoria da cultura e numa perspectiva galega, podem-se encontrar nesta obra, aliás, elementos para procurar rotas e passos nos que uma cultura como a nossa ajuste por fim as contas com a pós-modernidade e saiba lograr fortalezas ali onde sobram fraquezas, se calhar muito úteis e realistas na óptica da burocracia cultural que dá cabo de nós mas completamente aborrecíveis do ponto de vista dum pensamento livre e não pagado de si próprio.

No momento em que a crise mundial provoca sintagmas tão ridículos e carentes de sentido como a refundação do capitalismo, só para melhor sufragar-lhe as despesas aos bancos, e enquanto esperamos que nos paguem alguma factura ou nos ingressem em conta o subsídio de desemprego, dá para passar os olhos pelo interior do Palácio de Cristal, metáfora que tem por termo real o edifício erigido em Londres para a Exposição Mundial de 1851 e na que Fiódor Dostoiévski via concentrada a essência da civilização ocidental. Uma monstruosa recriação do mundo globalizado onde o Capital encenava quase por primeira vez a metafísica do Centro Comercial como refúgio final climatizado do ser humano.