Vieiras tóxicas.

Publicado en Novas da Galiza.- Era suspeito, há tempos, que andávamos a ser intoxicados. Sintomas havia que o delatassem mas ninguém era quem de assinalar o meio maléfico de que a epidemia se servia para se espalhar entre nós. Afinal eram as vieiras.

As vieiras vinham da Ria de Ferrol, onde intoxicações de todo o tipo causam furor popular desde há anos. Conforme impressões policiais as vieiras ártabras provocam amnésia. Em resposta a tal temeridade, dúzias de intelectuais, artistas, poetas e advogados celebraram uma comida para demonstrarem publicamente que eles, após a jantarada, lembravam-se perfeitamente de tudo e que a vieira é um símbolo nacional que merece todos os respeitos. Os jornais, arteiros, publicaram em primeira plana fotos do acto no que os comendadores, presididos por um senhor de barba reverenda, defenderam o patriotismo de chefes e chefas e acusaram a imprensa, sinaladamente a cozinhada na Corunha, de ofender a honra da alta gastronomia galaica. Com efeito, as rotativas não tiveram piedade, e houve quem aproveitasse até para gabar o lavor da Guarda Civil e criticar a Junta pela sua insignificância, mesmo ao lado da publicidade institucional que em página contígua louvava as bondades de sermos potência eólica e acuícola num futuro mais mediático que imediato.

Bem se sente que o AVE vem a caminho, embora poucos saibam que se lhe perdeu a tal pássaro por estes lares. No AVE, é de temer, servirão vieiras aos passageiros enquanto gozam da paisagem de virandelos e piscifactorias. Nem os virandelos nem as piscifactorias intoxicam muito, diz o conselheiro responsável de dizer essas coisas. O que o intoxica tudo são as vieiras que não passam pelo quirófano para lhes serem amputadas as vesículas. A perda da memória vai-se agravando nas elites, mas lá está em Madrid Don Manuel, quem também papou muita vieira desta, para lhe lembrar a próprios e estranhos que amnésia e amnistia são palavras de comum origem e que a liberdade só pode ser o prémio por esquecermos tudo e mais alguma coisa.

Entre jantares e etimologias, outro gaseiro entra discreto na Ría de Ferrol. A planta de Reganosa também não é tóxica. As plantas são verdes e não poluem, diz o conselheiro, apenas têm função clorofílica. A culpa de tudo, há que insistir, é dos bivalves de toda caste que nos intoxicam e nos confundem, porque afinal o problema da vieira depende muito de quem a cozinhe e sendo assim não há quem se fie da ementa. Pobres de nós, que não passamos do rodovalho antibiótico.

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